21 de novembro de 2019

3º DIA EM SANTIAGO - FARELLONES

** DIA 23 DE JULHO DE 2019 **

O terceiro dia em Santiago não foi apenas mais um dia no itinerário, foi o evento principal, foi dia de encarar a Cordilheira dos Andes de frente. 

Para quem sai do Rio de Janeiro, a neve não é apenas um fenômeno meteorológico, é um evento místico que exige uma logística digna de uma expedição à Lua, e com a Sousas Tour no comando, a missão era clara: conquistar Farellones!

O despertador tocou naquela hora em que o corpo não sabe se você está indo dormir ou acordando.

Com aquela animação contida (leia-se: olhos semicerrados e muitos bocejos), encaramos o desafio. Afinal, para ver neve, a gente aceita até fuso horário de padeiro. 

Até mesmo o Sr. Dias, que estava em um diálogo interno sério com a pizza da noite anterior, estava animado (na medida do possível). 

Como bons moradores do Rio, nosso guarda-roupa de "frio intenso" resume-se a um moletom que usamos três vezes por ano, por isso, fechamos o pacote com direito a aluguel de roupas. 

  • O Figurino: Entramos como pessoas normais e saímos parecendo o boneco da Michelin. Calças impermeáveis que fazem barulho de "vupt-vupt" a cada passo e jaquetas que poderiam isolar um reator nuclear.

Subir para Farellones é um teste de resistência para o labirinto de qualquer ser humano. São 40 curvas fechadas. A paisagem vai se transformando: o verde da cidade fica para trás e o branco dominante dos Andes começa a preencher a janela.



Finalmente chegamos! O ar gelado dos Andes parece ter dado um "choque térmico" no sistema digestivo do Sr. Dias, que bravamente decidiu que a neve era mais forte que a pizza. O enjoo, graças a Deus, ficou só na preocupação. Acho que estávamos euforicos demais para enjoarmos. Mas assim que descemos da van, veio o choque de realidade. O vento da Cordilheira não pede licença, ele atravessa até as três camadas de roupas alugadas.



Meu pensamento interno era: "O que eu estou fazendo aqui? Eu vou congelar antes do meio-dia! Por que não fomos viajar para o Nordeste do Brasil?". O frio era tanto que a mandíbula travava. O desespero era real!


Mas aí, a natureza resolveu colaborar com os visitantes do Rio. O sol subiu, as nuvens abriram, o céu ficou com um azul maravilhoso e aquele raio de luz bateu na neve. Foi como se alguém tivesse ligado o aquecedor dos Andes. O frio continuava lá, mas aquele "quentinho" no rosto deu a trégua necessária. Eu finalmente relaxei os ombros, parei de tremer como vara verde e pensei: "Ok, talvez eu sobreviva para contar a história".

Com o sol brilhando, a diversão finalmente começou de verdade. A estação de Farellones é um verdadeiro playground na neve.


Eu e Bia, que já estávamos no modo "Frozen", decidimos que seríamos as primeiras a enfrentar o desafio, e lá fomos nós para a esteira! A subida lenta é aquele momento de reflexão: "Será que devo subir mesmo?"


Já no topo, o funcionário da estação dá todas as instruções. A gente balança a cabeça dizendo que entendeu tudo, mas a verdade é que o cérebro só processa uma informação: "Segura firme, reza e vai!"

E lá fomos nós... ou melhor, lá escorregamos nóoooos!

No início, é um deslizamento suave. Três segundos depois, a física entra em ação e a prancha ganha uma velocidade que faz o vento gelado bater no rosto e o grito sair do fundo da alma. É o tipo de diversão que faz você esquecer que acordou às 4:30 da manhã e que quase virou um picolé humano agora pouco.

Enquanto a Bia ria, eu não sabia se segurava ela, que estava sentadinha na minha frente, ou se tentava manter a dignidade enquanto a prancha descia. 

A descida termina antes da hora. A prancha, provavelmente sentindo minha alma quase sair do corpo, começa a diminuir a velocidade até que freia antes da área de escape. Eu não sabia se tentava levantar, ou se me preocupava com as pranchas que vinham atrás, completamente desgovernadas.

"De novo! De novo!" – gritava a Bia. 

Seu pedido é uma ordem! Mas dessa vez vai descer com o papai. 

E lá foram os dois... Lá no alto, Sr. Dias e Bia se acomodaram na prancha. A estratégia parecia sólida: o pai segurando a pequena para uma descida estável. O funcionário deu o empurrão e a gravidade fez o resto.


O problema é que as pernas do Sr. Dias não foram projetadas para uma prancha daquele tamanho. No meio da descida, cada vez que o calcanhar dele batia no chão, levantava uma cortina de neve digna de um filme do Alasca.


Quando a prancha finalmente parou na base, enquanto o Sr. Dias conferia se todos os órgãos ainda estavam no lugar, a minha visão era surreal:

Bia estava literalmente empanada no gelo, da pontinha da bota até o topo da touca.

A cena era tão absurda: o pai tentando limpar a filha enquanto ela tentava processar o banho de neve, que o registro fotográfico foi sacrificado em nome da gargalhada.

Às vezes, as melhores lembranças são justamente aquelas que a gente esquece de filmar porque está ocupado demais vivendo (e rindo da desgraça alheia).


Chegou a hora de pegarmos o teleférico. É aquele momento em que a gente percebe a imensidão da Cordilheira dos Andes sob os nossos pés.

Como as cadeirinhas têm limite de espaço, a logística foi definida: Bia subiu comigo e o Sr. Dias seguiu na cadeirinha logo atrás, em voo solo, balançando as pernas (agora bem longe do chão, para a segurança de todos, principalmente da Bia) e tentando manter o equilíbrio entre o celular, as luvas e o vento gelado.


Lá de cima a vista é de tirar o fôlego. O contraste da neve branquinha com o céu azul estava perfeito. 

Fotos, muitas fotos! Afinal, é impossível você ir aos Andes e não voltar com muitos registros.



A troca estratégica! Se na subida a minha missão era proteger o "picolé humano", na descida a configuração mudou para dar ao Sr. Dias a chance de se redimir com a Bia (ou de causar um novo evento climático).

Descer no teleférico é uma experiência completamente diferente de subir: você fica de frente para o abismo branco e a parte de baixo do parque, lá no fundo, parecendo uma maquete.




Chegou a hora da diversão em família! A boia famíliar é o momento de união: todos juntos, deslizando por uma ladeira menos íngreme, mas com aquela velocidade gostosa que faz a Bia vibrar. 

A descida é rápida, o riso é garantido, mas... "quem desce, tem que subir", e a subida é feita puxando aquele "transatlântico" de borracha, que cabe umas 06 pessoas. Não, eles não tem um sistema que puxa a bóia de volta lá pra cima. O sistema é humano, e se você usou a bóia para descer, você que se vire para leva-la de volta lá pra cima. 

Como um legítimo cavalheiro carioca, o Sr. Dias não deixou por menos e pegou a boia gigante para puxar sozinho montanha acima. Foi seu último momento de paz estomacal. O esforço físico, com o ar rarefeito dos Andes, foi o golpe final. Foi o gatilho que a pizza precisava para declarar guerra novamente. 

Com a dignidade ainda intacta, mas a barriga em frangalhos, o Sr. Dias pediu tempo. Ele se abrigou em uma tenda estratégica — um lugar quentinho e estável — enquanto eu a Bia assumiamos o controle da expedição.



Bia fazendo pose na neve, fotos com os picos ao fundo, com as placas clássicas da estação.




Percorremos todo o parque e registramos tudo o que o Sr. Dias estava perdendo enquanto tentava fazer as pazes com o sistema digestivo. 
 

Mesmo depois da "vingança da pizza", do frio congelante e do esforço de fazer inveja ao Hércules ao puxar a bóia gigante na altitude, bastaram alguns minutos, ou uma hora, de repouso (e talvez uma conversa motivacional com o próprio estômago) para o Sr. Dias decidir que não ia deixar a pizza vencer. Ele emergiu da tenda pronto para a ação, e provou que o espírito de pai é mais forte que qualquer desconforto gástrico.


Carioca que é carioca não perde uma chance. Com o Sr. Dias de volta ao núcleo familiar, teve guerra de neve e mãos congeladas...


... teve boneco de neve super simpático e mais mãos congeladas...






... e o registro da criatura e seus criadores.


O Sr. Dias foi um guerreiro! Ele enfrentou a neve, a altitude e a "ira da pizza Novaiorquina", tudo para garantir a diversão da Bia!

Entre bóias, bonecos de neve e teleféricos, o dia passou em um piscar de olhos gelados.

A descida na van foi o silêncio total. O cansaço bateu, mas com aquele sorriso no rosto de quem cumpriu a missão. Devolvemos as roupas de astronauta, recuperamos nossa identidade e voltamos para o hotel com a memória (e o rolo de câmera) cheia!

Depois de tanta adrenalina, o Sr. Dias tomou a decisão mais sensata do dia. Ele se rendeu ao conforto do edredom do hotel e não desceu para jantar.

Enquanto isso, eu e a Bia fomos ao restaurante do hotel para uma refeição tranquila. Ela, com as bochechas ainda rosadas do frio da montanha, e um belo sorriso no rosto, contava e recontava as aventuras na neve.



O Sr. Dias pode não ter descido para o jantar, mas ele dormiu com a medalha de ouro de "Pai do Ano". Afinal, quem mais enfrentaria a Cordilheira dos Andes com o estômago em guerra só para ver o sorriso da filha?



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